Ágora do Rio

29 julho 2010

Novo endereço

http://docantodeca.wordpress.com/

13 maio 2010

Meandro

Incontestavelmente lúdico
Não há razão para discordar
É breve, frágil, rústico, amargo

Toda sombra é dúvida
O caos é morno
Meu caos, meu terno azul rasgado
Sofisticado a ponto de ser moderno
Irreversível
Mestre da ponta do lápis gritante
A beleza é satisfatória

Independência tácita
Loucura inata
Rendem-se perante os pés do rei soberbo
Ridicularizado
Adestrado pelos cães soldados
A farsa é pobre no espírito rogado
A longevidade, insípida,
Foi pelo canto errado da rua descoberta
Traçado amortecido
Era de se esperar o som passivo
Mas a tendência é vacilante

Repúdio ao ócio do osso quebrado
Rolam as pedras que antes cantavam
Choram parreiras
Pés se levantam e cospem poeira
Incerteza e sorte
Leviano coração humano

O poste tem pressa
A régua se mede de ponta à cabeça
São águas passadas por todo o planeta
É um poço sem sentido
Não há razão para interpretar
Pobre poesia moderna
Caneta sem tinta
Pena sem pássaro
O voo foi cancelado por falta de atraso

As mãos da senhora não tremem mais
Rugas maduras
Pele impecável de tempo adorável
Rosto sereno em meio a todos

A névoa tapou meu horizonte
O sopro refez meu caminho
É ar para viver
Luar de quem ama
Só são presas porque tu queres
Se queres, te prende
Tu sabes, você sabe, ou ainda não

Paralelamente a mente mata
Selvagem e voraz
Vingança doce e lenta
Infelizmente, sou o alvo em vista
Corri como pude
Fugi do submundo apoteótico
Lancei fora do aquário o peixe errado
Tracei metas conflitantes
Desci escadas sem degraus
Larguei os óculos na estante quebrada
Me livrei de tudo e só me restou uma palavra
Meandro.

17 abril 2010

Via sperare

Ela caminhava lentamente. Carregava nos ombros o peso de um amor inteiro. Carregava porque não havia outro jeito. Era assim que deveria seguir até o fim daquela estrada. Sabia que, chegando lá, o sofrimento arrefeceria. Poderia, enfim, liberar os ombros cansados. Por fim, o começo de uma vida. A vida com a qual sonhara antes mesmo de saber.

Mas a estrada era extensa. Inimaginavelmente extensa. Inimaginavelmente porque não podia ver o seu fim. E não podia sequer imaginá-lo. Não era fácil caminhar assim. Não foi fácil até ali e, definitivamente, não seria fácil a partir dali. Para ela, parecia ficar cada vez mais difícil.

Aquela não era só uma estrada de passeios planos e firmes. Era uma estrada tortuosa e torturante. Por vezes, era um caminho sem fim. Um segmento de andar duro, ríspido, confuso, trepidante, anômalo, triste. Havia dor naquela estrada e a dor era intensa, imensa. Vestígios de lágrimas podiam ser vistos por todo o espaço da via. Era notável que muitos não conseguiam seguir por muito tempo naquele caminho. Sabe-se que poucos seguiram até o final.

Ela caminhava lentamente, mas não parava de caminhar. Sabia que não podia parar. Sabia que deveria seguir ininterruptamente até o fim. Mas estava cansada. Ela pensou algumas vezes em parar. Talvez fosse melhor desistir. Talvez não valesse a pena. Não. Ela não desistiu. Estava cansada, mas ainda tinha forças. E sabia que, eventualmente, recobraria o ânimo. Suas lágrimas estavam-se esvaindo e secando em seu rosto. Ela esboçava um sorriso. O sorriso mais belo, que só nela nascia.

Mas ela não caminhava só. Ela tinha alguém. Alguém que carregava no peito. Alguém que repartia com ela o peso nos ombros. E os pés dele guiavam seus pés, procurando os espaços mais macios da estrada. Suas mãos seguravam as dela com firmeza e carinho. Seus braços a envolviam e ela sentia-se segura. Seus olhos fitavam diretamente os dela e a enchiam de paz. Seus lábios a beijavam com ternura e paixão. Sua voz a cobria de esperança. Ela não o notava sempre, mas ele estava sempre ali.

Ela caminhava e não parava, porque sabia que valia a pena. Sabia que o que carregava nos ombros era valioso o bastante para valer o esforço.

15 abril 2010

Que droga! ou Água mole em pedra dura* (RIP)**

Ia postar um texto sobre a chuva e a tragédia e tudo o mais que aconteceu no Rio e em Niterói semana passada. Só que, depois que já havia escrito tudinho, bonitinho, legalzinho, cliquei na paradinha de atualização e, tcharam, deu ruim! "Calma, deve estar salvo no rascunho." - inocentemente me iludi. Não estava nada! Ok, estava o primeiro parágrafo. Que beleza...

Moral da estória: estou um tanto quanto revoltado. E o pior é que tinha gostado do texto. E o mais pior ainda (redundância necessária) é que jamais vou conseguir reescrevê-lo! Por mais que eu faça um texto melhor, eu não vou achar melhor. Não tem como. Por mais que eu ganhe um Pulitzer com ele, ainda assim será infinitamente pior que o original pra mim. E ninguém vai poder me contestar, porque o original NÃO EXISTE MAIS!!! Simplesmente desapareceu da face da terra. Não deixou vestígios. Tá bom, deixou o primeiro parágrafo. Legal... ¬¬

Se tivesse desaparecido por completo seria melhor. Não ficaria encarando-o e tentando sugar do fundo de meu córtex cerebral (esta frase não deve fazer o menor sentido) as mesmíssimas palavras que usei pra construir aquele texto que tanto me trouxe paz e alento em sua tão breve existência. Pois é, a raiva e a decepção se tornaram em tristeza. Vou chorar e já volto...

Voltei. E, quer saber? Que se dane! Não queria postar aquele texto mesmo. Devia estar ridículo. E é bem possível que eu sofresse críticas e agressões verbais de boa parte de meus mulhões de leitores. É que eu repartia a culpa da tragédia dos deslizamentos com os moradores das favelas. Não sei porque eles se eximem de toda a culpa se eles sabem que moram em local de risco. Concordo que muitos não têm condição de morar em outro lugar, mas quando alguns têm a oportunidade de se mudar não o fazem. A culpa também é dos que criticam as medidas de contenção da ocupação desordenada, a saber, os muros em torno das favelas e a remoção de moradores. A culpa também é minha que não fiz nada pra mudar alguma coisa. A culpa é do governo, obviamente. E a culpa é do sistema; o capitalista.

Não estou culpando os moradores de favelas pelas mortes (eu explicava melhor no outro texto), só estou dizendo que eles sabem que moram em locais de alto risco. Eu me solidarizo com os que estão sofrendo tanto. Não imagino a dor que estejam passando e espero que esta tragédia jamais se repita. Só que eu não sei melhor solução para isto do que a remoção de moradores das áreas de risco. Por isso, não a entendo a seguinte declaração do Comitê de Mobilização e Solidariedade das Favelas de Niterói: "Nossa dor está sendo usada para legitimar os projetos de remoção e retirar o nosso direito à cidade."

Se você tem alguma solução melhor, por favor me avise.



*Título do outrora texto.

**Rest in peace (descanse em paz)

08 abril 2010

Dias depois

- Como assim ele está vivo?!

- Ele ressuscitou! Ele voltou, em carne e osso! Ele é o Cristo!

- Então quer dizer que ainda há esperança. Israel será restaurada!

- Não é bem assim...

- Como não? Está nas escrituras que o Cristo viria para restaurar Israel. O Cristo é o libertador do povo de Deus!

- Sim. Ele é o libertador. Ele é a Nova Aliança de Deus com o povo, mas não se trata só do povo de Israel. Perguntaram-lhe, a Jesus, em uma de suas aparições aos discípulos, se restauraria o reino de Israel neste tempo. Ele respondeu que não nos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder.

- Eu não estou entendendo... Como ele é o libertador?

- Ele nos libertou da morte. Era necessário que fosse morto para que pudesse vencer a morte e, assim, nos libertar de suas amarras. Por meio de seu sangue fomos salvos. Nós, os que cremos em sua santidade. A glória de Deus Pai foi manifesta nele. Ele é a primícia dos que ressuscitarão para viver a glória eterna diante do Pai. E a Nova Aliança é a nova Israel, a saber, todo aquele que confessar que Jesus Cristo é o Senhor. O povo santo do Senhor. Porque disse aos discípulos: "Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dos mortos; e em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém." Disse ainda: "Recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da Terra."

- Então a salvação era a libertação dos pecados e da morte?

- Sim. Cristo é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. O sacrifício derradeiro. O véu do templo foi rasgado. Ele trouxe livre acesso ao Pai.

- E onde ele está agora?

- Ele subiu aos céus diante dos discípulos. Está à destra do Pai. Mas eis que virá sobre nós o seu Espírito consolador e estará conosco até a consumação dos séculos.

03 abril 2010

Sexta

- Ele está morto?

- Está.

- Eu não entendo. Não era pra ser assim. Ele era nossa esperança de libertação. E agora?

25 março 2010

Adiante

Eu queria desejar-lhe um bom dia, mas o dia já passou. São 23:35 e eu deixei o dia passar. Um dia inteiro e eu não lhe disse uma palavra sequer. Infelizmente, eu não posso voltar no tempo. O erro não pode ser apagado. Desculpe-me. Por favor, desculpe-me. Ainda que pareça ser tarde demais, desculpe-me. Eu não queria que fosse assim. Eu tinha tanta coisa pra fazer hoje. Tive que levantar mais cedo e não quis acordá-la. A manhã foi mais agitada que de costume. Pensando bem, esta frase não deve fazer muito sentido pra você. Sei que tenho estado ausente nas últimas semanas e sei, também, o quanto isto tem afetado o nosso relacionamento. Pensei em levá-la para almoçar comigo hoje, mas o trabalho não permitiu. E o trabalho me levou o resto do dia. O trabalho me levou você. Eu permiti isto. Fui cego e idiota o bastante pra não perceber. Quando consegui a promoção fiquei tão feliz. Ficamos tão felizes! Parecia que nossos problemas acabariam de vez. Poderíamos eliminar as dívidas, comprar uma boa casa e, finalmente, preparar terreno para a chegada de um tão sonhado filho. E como queríamos um filho! Mas as coisas caminharam de um jeito imprevisível. A bênção se revelou maldição. O trabalho, em vez de nos unir por completo na figura de um filho, nos separou de maneira lenta e dolorosa. A harmonia tão bela que havia entre nós foi despedaçada. E a culpa é toda minha. Você me alertou repetidas vezes, mas eu não queria escutar. Estava intocável no meu novo mundo de poder e não podia ser abalado. Você deixou de ser a encarnação do meu amor para se tornar apenas mais um troféu de minha vida vitoriosa. Eu me tornei desprezível. Tenho vergonha do que fiz. Tenho vergonha do que me tornei. Meus olhos se enchem de lágrimas no exato instante em que me lembro. Há poucos dias, após o enterro de mamãe, meu pai me surpreendeu aparecendo no trabalho para almoçar comigo. Ele estava preocupado com o que via acontecer conosco; comigo. A princípio, fui relutante em admitir qualquer coisa, mas aos poucos ele foi me vencendo. Suas palavras naquele dia foram tão fortes que nós dois ficamos chorando ali, feito duas crianças que perderam seus doces, por uns bons minutos. Disse, entre outras coisas, que, apesar do sofrimento inerente à perda de mamãe, podia continuar sua vida em plenitude com a certeza de que havia vivido até ali para torná-la feliz. Acho que agora você entende porque tenho estado um pouco diferente nestes últimos dias. Estava tudo errado e eu tinha que tentar arrumar antes que fosse tarde demais. Organizei todo o meu serviço na empresa de maneira que não saísse de lá com pendências. Pois é, eu resolvi me demitir. As coisas podem até ficar mais complicadas financeiramente daqui pra frente, mas sei que é a atitude certa. Nós devemos construir este casamento juntos. Eu quero viver para torná-la feliz. Eu te amo! Que Deus nos abençoe!

Com amor,

Seu eterno marido.

A porta abre:

- Você me perdoa?